Cyan Entrevista: Michel Fernandes, diretor da Msfernades Consultoria Agrícola

Conversamos no dia 08 de Maio com Michel Fernandes sobre as informações mais importantes de se ter em mãos para um bom resultado na aplicação de maturadores, e também, um pouco sobre as perspectivas do mercado nesse momento de crise política, econômica e na saúde. 

 

Fernandes já foi professor da UEMG – Campus Frutal de 2008 a 2014 e campeão de vários prêmios ligados ao setor canavieiro. Atualmente é diretor da Msfernades Consultoria Agrícola – consultoria para multinacionais do setor e produtores de cana. Foi também criador do evento CANATECH, onde reúne cerca de 950 pessoas para ouvir debates e palestras do setor sucroenergético, e criou o canal no youtube CANATECHAGRO, onde discute temas ligados ao setor canavieiro e leguminosas. 

 

1 – Sobre Maturação – Quais os 3 principais fatores externos que afetam o tempo de maturação de uma cana? Poderia citar os ranges ideais para cada um dos fatores?

Michel: Os fatores principais são climáticos, temperatura, seca e também a variedade da cana em si. Estamos falando de fisiologia da planta, um ser vivo, então nós temos diretrizes, números é claro, mas não existe uma receita de bolo. Temperatura do 18°C é ideal para a maturação? Vai depender de radiação, do solo, chuva. Os fatores interagem muito entre si, o que impossibilita uma resposta pronta. 

 

2 – Duas canas iguais (mesma variedade, mesmo corte, mesmo ambiente), plantadas em locais diferentes, podem atingir a maturação em tempos diferentes em função da disponibilidade hídrica? De que forma essa diferença chega a afetar o desempenho de maturadores? 

Michel: Com certeza, a maturação da cana está totalmente ligada a capacidade de retenção hídrica do solo e quanto mais seco o solo maior a maturação.

 

3 – Poderia citar os impactos negativos de uma aplicação de maturador realizada no momento errado? As Usinas chegam a aplicar maturadores em áreas desnecessárias ou eventualmente não aplicar em áreas necessárias ?

Michel: O momento “errado” seria quando a cana começasse a ter menos áreas verdes nas folhas, onde a absorção do produto seria menor, aqui eu estou criando uma correlação entre folhas verdes e maturação. Mas um outro momento que poderia ser considerado “errado” seria a aplicação do produto na época seca, nesse período a eficiência do maturador seria mínima. Apesar disso, esse tema abre um leque de discussão muito grande e temos poucos trabalhos desenvolvidos sobre isso.  

Vai da filosofia de cada empresa, tem empresa que não acredita em maturador químico e tem outras que defendem a tecnologia. Aplicar de forma desnecessária… dificilmente vai acontecer algo desse tipo, o que pode acontecer é, por exemplo a aplicação do maturador para colher com 30 dias ideal e então a usina antecipa ou atrasa a colheita pelo operacional, esse é um fator que impacta bastante na questão de maturadores. 

 

4 – Baseado na sua experiência, qual a maior dificuldade das usinas em planejar, gerenciar e executar o plano de aplicação de maturadores?

Michel: A maior dificuldade sem dúvida é a operação propriamente dita, pois a colheita pode adiantar ou atrasar, isso dependendo muito do cadenciamento das frentes de trabalho.

 

5 – Qual seria a importância de se obter dados climáticos especializados?

Michel: Sem dúvidas para obter menor chance de erro na absorção do produto e também possibilita garantir uma maior eficácia do maturador.

 

6 – Como as informações disponibilizadas de chuva observada,  balanço hídrico, previsão de tempo e NDVI  podem ajudar o trabalho do consultor a ter uma visão geral das fazendas do seu cliente?

Michel: Pode ajudar bastante mas temos que fazer um trabalho de balizamento e conferência para um auxílio positivo.

 

7 – Comparar o crescimento da cana, cruzar informações com dados climáticos, observar o CAD de cada área e ter o histórico de chuvas por área contribuiria para otimizar a aplicação de maturadores? De que forma?

Michel: O que interfere muito na maturação é a idade cronológica e fisiológica da cana. Com relação ao CAD da área, essa informação é excelente pq a CAD vai fazer a cana vegetar mais ou menos. Eu costumo falar o seguinte, é claro que é interessante a gente ter o histórico, mas a aplicação de maturador depende muito da chuva do ano, então a CAD junto às informações de chuva daquele ano vai me mostrar uma melhor condição ou uma pior condição para a maturação da cana. 

 

8 – Faz sentido isolar áreas de mesma idade, corte, variedade para compor uma sequência para pré-analise de ATR e aplicação de maturadores? Qual o impacto de um manejo bem feito nesse assunto específico?

Michel: Sim, esse método faz todo sentido, mais um ponto crucial que não foi citado é o tipo de solo e a altitude que influenciam bastante, agora quanto exatamente ninguém sabe… precisamos aprofundar. 

 

9 – Que conselhos você daria aos consultores para adequação e superação das condições do momento atual de Covid-19 e instabilidade política e econômica?

Michel: É um momento difícil e sem previsão de recuperação total, devemos mudar o conceito de tudo e acredito que a tecnologia terá um papel fundamental auxiliando o trabalho no campo, agora mais do que nunca. Com relação a economia, infelizmente é uma incerteza global, onde não temos noção de muita coisa, o que nos resta é esperar o melhor.

 

10 – O que as usinas podem fazer para enfrentar os próximos meses deste período crítico?

Michel: As usinas que estão com maiores diversificações de produtos como etanol, energia, leveduras etc, passarão mais serenas por esses mares turbulentos. As demais sentirão com mais força os efeitos da recessão causada por essa crise na saúde e na economia. Ao meu ver, a chave seria investir em mais de um produto, abrindo maiores possibilidades de mercado consumidor.