Cyan Entrevista: Marcos Kuva, Engenheiro Agrônomo Dr. Diretor da Herbae Consultoria e Projetos Agrícolas Ltda.

Conversamos no dia 25 de Maio com Marcos Kuva sobre os maiores desafios no combate a ervas daninhas, mitos e dados importantes para um combate efetivo.

Marcos Kuva é Engenheiro Agrônomo Dr. Diretor da Herbae Consultoria e Projetos Agrícolas Ltda. Atuando como pesquisador em ciência das plantas daninhas em diversas culturas com destaque na cana-de-açúcar e em consultoria para usinas de açúcar e álcool na elaboração das estratégias de controle.

 

1 – Fale de alguns mitos sobre plantas daninhas e seu controle que você encontra conversando com técnicos e agrônomos de usinas.

Marcos Kuva: Um deles é em relação aos sintomas visuais de injúria. Quase todos ficam extremamente incomodados com branqueamento, amarelecimento, avermelhamento, necroses pontuais, etc, mas não se atentam muito na redução de crescimento, que muitas vezes passaram despercebidos devido à ausência de um padrão de comparação, uma testemunha, por exemplo. A cana tem um ciclo longo e uma grande capacidade de recuperação e na grande maioria das vezes os sintomas são temporários, sem reflexo na produtividade. Mas é bom deixar claro que perdas por intoxicação podem sim ocorrer e o correto dimensionamento das doses bem como a maior previsibilidade de clima são fundamentais para reduzir o risco de ocorrência desses danos. Outro que podemos mencionar, é que todo e qualquer mato deve ser eliminado independentemente da espécie e época de ocorrência. Algumas espécies ao germinarem tardiamente no ciclo da cana não afetam a produtividade e não merecem os esforços e o gastos para seu controle, desde que não interfira na colheita, mesmo sabendo que haverá algum depósito de sementes no banco.

 

2 – Análise de dados retroativos, o que podemos aprender com o passado nessa questão de daninhas? 

Marcos Kuva: Poderíamos resumir essa resposta da seguinte forma: “Devemos analisar o passado para melhor planejar o futuro”. Há anos tenho na minha cabeça que o processo de controle do mato na cana é um dos mais complexos. Essa complexidade advém da diversidade de cenários que encontramos para controlar o mato na cana (tipo de canavial e suas variações, características de solo e condições climáticas). Essa diversidade de cenários, aliado a diversidade na composição de espécies e de tratamentos químicos possíveis de ser empregados promovem grande variabilidade de resultados. Para processos tão complexos como estes a construção de Big Data pode ser o diferencial para conseguirmos tomar decisões cada vez mais assertiva. Estamos longe de ter Big Data de forma organizada, mas temos que começar a juntar o que temos hoje de forma separada e pouco organizada. Conheço plataformas sensacionais de solo, clima e NDVI (como é o caso do Cyan) e as usinas já tem dados bastante robustos de informações relacionadas ao canavial e aos tratos culturais. Está faltando no banco de dados os resultados de controle obtidos e de seletividade. Quando tivermos isso acho que fechamos o circuito e aí só o tempo e o acúmulo de dados para refinar os algoritmos que auxiliarão os técnicos na tomada de decisão. Ao meu ver, a melhor decisão sempre será aquela baseada no conhecimento do técnico e num banco dados. 

 

3 – Dados climáticos de alta resolução espacial e temporal também podem ajudar na gestão e no sucesso das estratégias de controle? Como?

Marcos Kuva: Sim, como eu comentei anteriormente a condição de umidade do solo antes, no momento e durante os três ou quatro primeiros meses após a aplicação são fundamentais para explicar o sucesso ou o fracasso de uma escolha de tratamento químico. Diferente das culturas anuais de verão, no caso da cana-de-açúcar existem áreas sendo liberada para tratos de janeiro a janeiro. Isso proporciona uma grande diversidade de cenários para atuação de herbicidas, desde a condição extremamente úmida a condição extremamente seca. Nos extremos, não há muitas dúvidas e riscos, mas nas transições é que a previsibilidade pode ser fator fundamental para nortear as escolhas. Existem regiões que essas condições de seca e úmida são mais definidas e constantes, mas em outras, essa separação é um pouco mais confusa com veranicos no período úmido ou chuva de inverno no período seco e isso afeta muito o resultado esperado. Esse maior domínio na previsão de clima pode ajudar no planejamento. Por outro lado, dados retroativos, como mencionado anteriormente ajudaram a explicar casos de sucesso e fracasso das nossas escolhas e num banco de dados podem direcionar melhor as escolhas futuras. Complementando, tem também a questão de herbicidas pós-emergentes que não podem receber chuva antes de um intervalo mínimo e essa previsibilidade pode reduzir perdas de aplicações por lavagem pela água da chuva. Não é só chuva, um outro aspecto climático importante quando se fala em herbicida é a questão da deriva. O potencial de deriva depende basicamente da característica do produto, da tecnologia de aplicação e de fatores climáticos; vento e regime de temperatura que favoreça a ocorrência do fenômeno de inversão térmica, que impedem que herbicidas volatilizados se dispersem para maiores altitudes e cause danos em culturas vizinhas ao canavial tratado.

 

4 – Nas usinas em que você trabalha ou trabalhou esses dados climáticos retroativos são disponibilizados? Qual a qualidade desses dados?

Marcos Kuva: Acho que todos têm uma rede de captura e registro de variáveis climáticas, mas a qualidade pelo que vejo é muito variável e pouco utilizado no planejamento de tratamentos herbicidas e na avaliação de desempenho dos mesmos. Com certeza, nada do que existe no setor tem a precisão do que oferece o Cyan, que combina, várias tecnologias para melhor prever e registrar dados climáticos com alta resolução espacial e temporal.

  

 

5 – Poderia falar sobre os custos relacionados a herbicidas, aplicações e pessoal para essa atividade nos departamentos agrícola das usinas?

Marcos Kuva: Se considerarmos operações de preparo de solo e plantio ou operação de colheita, o controle de planta daninhas pode ser considerado baixo. No entanto, dentro dos custos de tratos culturais com certeza o peso é bem maior. Já é considerável quando tudo dá certo e o resultado fica satisfatório com uma única intervenção, mas quando algo dá errado e novas intervenções são necessárias aí onera bastante. Se o escape é de folhas largas ainda temos moléculas seletivas que podem ser aplicadas sobre a cana grande via autopropelido, helicóptero, aviões ou até drones, embora o custo da aplicação seja elevado. Por outro lado, se o escape for de gramíneas só há uma solução, aplicação localizada de herbicida com pulverizador costal o que demanda grande mão-de-obra, indisponível hoje na maioria das usinas.

 

6 – De que maneira o novo Cyan Works pode ajudar no monitoramento e controle de plantas daninhas? Como é feito hoje?

Marcos Kuva: Vamos responder essa de trás para frente. Considerando as grandes empresas (Usinas e grandes fornecedores), atualmente o controle é realizado com aplicação de uma associação de dois ou mais herbicidas. Essa aplicação normalmente é realizada antes da emergência das plantas daninhas (pré-emergência) ou com parte da população emergida (pós-inicial) e outra parte a emergir. Como o fechamento das entrelinhas do canavial pode ocorrer tardiamente (entre 90 a 150 dias) dependendo da condição climática, idade do canavial e nível de degradação, muitas vezes o residual dos herbicidas não são suficientes o que resulta em reinfestações e necessidade de complementação de controle com nova aplicação. Essa nova intervenção é limitada pelo alto custo e muitas vezes também pela ausência de estrutura e mão-de-obra. Neste ponto, o monitoramento do Cyan Works poderia auxiliar no estabelecimento de prioridades nessa atividade complementar, pois poderia identificar onde acontecem tais reinfestações e em qual nível está ocorrendo. Adicionalmente essas informações podem ser cruzadas com o potencial de resposta do canavial e auxiliar na tomada mais racional da decisão.

 

7 – Quais são os maiores desafios no combate às plantas daninhas? Encontrar sua localização, escolher os herbicidas corretos, aplicar corretamente? Qual sua opinião?

Marcos Kuva: O maior desafio é ter de forma antecipada a magnitude e a composição da comunidade infestante nos diferentes talhões em função da época de corte ou plantio, histórico de infestação e ocupação nos anos anteriores e condições de clima (regime de umidade, amplitude térmica, luminosidade). Para isso precisaríamos ter um método aplicável na prática para estimar a composição do banco de sementes e conhecer a respostas das principais espécies frente aos fatores climáticos e microclimáticos, ou seja, entender o que estimula a semente a germinar ou manter-se dormente. Isso é uma tarefa extremamente difícil, mas é um desafio.

Sendo um pouco mais realista, ajudaria muito se houverem ganhos e melhorias nos três itens citados na pergunta, são realmente importantes, mas acrescentaria; dimensionamento adequado de estrutura, manutenção dos ritmos de reforma, definição mais rápida nos impasses contratuais de áreas, assertividade nas ações complementares de repasse baseado na localização por imagens, total sincronização com outros processos evitando atropelos.

 

8 – Como as plantas daninhas afetam os lucros do setor sucroalcooleiro, passando pelo produção, colheita e transporte?

Marcos Kuva: Um termo bastante abrangente normalmente atribuído a relação plantas daninhas – cultura é “interferência negativa”. Esse termo é bastante completo, pois não contempla somente perdas e prejuízos diretos, mas também os danos indiretos. Os danos diretos ocorrem pela competição pelos recursos do meio (nutrientes, água, luminosidade, CO2), pela alelopatia que é a liberação de compostos no meio pelas plantas daninhas em detrimento ao desenvolvimento da cultura e pelo parasitismo, mas esse último não tem importância na cultura da cana. Já os danos indiretos podem ser representados por; redução no rendimento de outros processos como colheita, controle de pragas, cultivo, etc. Para se ter uma ideia, na cultura da cana muitas vezes a interferência indireta na operação de colheita pode até superar, em importância, perdas diretas por competição. Outras formas de interferência indireta são a presença de impurezas no transporte e no processamento industrial depreciando a qualidade de açúcar, por exemplo.