Cyan Entrevista: Dr. Lincoln Muniz Alves, Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

No dia 6 de Julho conversamos com o especialista em clima Dr. Lincoln Muniz Alvez sobre questões climáticas e seus efeitos na produtividade no campo. 

Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Sua pesquisa pessoal tem focado no uso das informações climáticas no Brasil. Lincoln é responsável por fornecer informação técnico-científica para orientar as políticas públicas de mitigação e adaptação às mudanças ambientais. Participa de diversos projetos nacionais e internacionais, na área de mudanças climáticas globais, modelagem climática, impacto, vulnerabilidade e adaptação. É autor líder do IPCC AR6 WGI. Tem mestrado e doutorado em modelagem climática e mudanças climáticas no Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), São José dos Campos, Brasil.

 


Os grandes produtores do mundo já perceberam isso e incorporaram essas informações (climáticas) nos seus planejamentos estratégicos de curto, médio e longo prazo.

Dr. Lincoln Muniz Alvez.


 

Qual a diferença entre previsão de tempo, clima e projeção climática? 

Dr. Lincoln: O termo previsão se refere a descrição detalhada de ocorrências futuras esperadas. Nesse sentido, a previsão do tempo refere-se ao prognóstico das condições atmosféricas na escala de dias (1 a 7 dias) e é apresentada de forma determinística; A previsão climática expressa as condições climáticas médias futuras para um a seis meses sempre em relação ao comportamento médio do passado e é apresentada de forma probabilística. Por fim, projeção climática são cenários futuros das condições climáticas que podem vir a acontecer nos próximos 30-100 anos baseadas em premissas de desenvolvimento socioeconômico global. Esse último está relacionado a mudança do clima uma definição mais ampla do que aquecimento global, que se refere apenas ao aumento da temperatura. O que se chama de mudanças climáticas inclui temperatura, intensidade das chuvas e eventos climáticos extremos, como furacões e ondas de calor.

 

A previsão de tempo nos dá qual a temperatura mínima e máxima de amanhã, porque a previsão de clima não consegue entregar esse tipo de informação? 

Dr. Lincoln: A atmosfera terrestre é um sistema caótico, isto é, pequenas mudanças em parte do sistema podem causar grandes efeitos no sistema como um todo. Em outras palavras, os fenômenos meteorológicos são de comportamento caótico e de difícil previsibilidade a longo prazo. Sendo assim, é possível de realizar-se previsões das condições de tempo nos próximas horas e dias de forma determinística e com alto grau de confiabilidade. Já a previsão climática como está relacionada ao estado médio e essa condição é influenciada por fatores como temperatura média dos oceanos a previsão é dada de forma probabilística, ou seja, uma estatística do clima expressa normalmente através da probabilidade de desvios positivos ou negativos em relação ao comportamento médio do passado. É importante, ressaltar que tempo e clima são expressões distintas.

 

Como deve ser interpretada a previsão climática? 

Dr. Lincoln: A previsão é baseada em modelos climáticos fornecidos por diversos centros de meteorologia nacionais e internacionais e nas análises das características climáticas globais observadas nos últimos meses. A partir daí aplica-se algum método estatístico para combinar todos esses resultados das previsões dos modelos, incluindo a informação da destreza retrospectiva das previsões desses modelos. Baseado nessas informações, apresenta-se a previsão climática em três categorias (abaixo da faixa normal, dentro da faixa normal e acima da faixa normal) para um trimestre específico.  

 

Quase que diariamente vemos notícias que nos alertam sobre os riscos climáticos em todo mundo, qual seria o principal impacto das mudanças climáticas no Brasil? 

Dr. Lincoln: Uma breve síntese da literatura científica indica que o clima no Brasil nas próximas décadas deverá ser mais quente – com aumento gradativo e variável da temperatura média em todas as regiões do país entre 1 ºC e 6 ºC até 2100, em comparação à registrada no fim do século 20. No mesmo período, também deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões central, Norte e Nordeste do país. Nas regiões Sul e Sudeste, por outro lado, haverá um aumento do número de precipitações. Eventos extremos de secas e estiagens prolongadas, principalmente nos biomas da Amazônia, Cerrado e Caatinga. Informações adicionais podem ser acessadas no primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1) do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), Link

 

Quais são os impactos do clima na agricultura a curto, médio e longo prazo? 

Dr. Lincoln: O impacto da mudança do clima sobre a agricultura principalmente traduz se na queda da produtividade, manejo e diminuição de áreas adequadas à condução de culturas. Além disso, estudos da Embrapa indicam também que o déficit hídrico é outro grande problema. Tudo isso relacionado diretamente pelo aumento da temperatura média, e a maior frequência de eventos extremos (enchentes, secas prolongadas, inundações etc.). Essa influência é específica a cada cultura e região.

 

Você acha que as mudanças climáticas já estão impactando a agricultura no Brasil e no mundo? 

Dr. Lincoln: Sim. Os diversos estudos do IPCC (Painel Internacional de Mudanças Climáticas) em seu último relatório especial destacam várias evidências de que a mudança do clima está impactando a agricultura em diversas partes do mundo. Link 

 

Como o nosso regime de chuvas vem se comportando nos últimos 5 anos? Está diminuindo em algumas regiões? Como estas alterações podem impactar o agronegócio? Existe alguma projeção/estudo do impacto das mudanças na agricultura do Brasil? 

Dr. Lincoln: O regime de chuvas dos últimos cinco anos nas diversas regiões do Brasil é bastante variável, por exemplo, tivemos uma seca de 5 anos sobre o nordeste do Brasil. Já na Amazônia tivemos períodos com bastante chuva. Talvez o relatório síntese que publicamos recentemente te ajude a compreender um pouco os diferentes comportamentos climáticos especificamente no último ano (2019).

“O mapa da NOAA (https://www.ncei.noaa.gov/sites/default/files/2019-Global-Temperature-Percentiles-Map.png0,  mostra que todo o Brasil apresentou temperaturas maiores que a média, com recorde nas Regiões Sudeste e Nordeste do país.” Link 

 

Vc acredita que ter um melhor acesso a informações climáticas especializadas e atualizadas diariamente pode contribuir com uma melhor tomada de decisões e diminuir o impacto na produtividade agrícola? 

Dr. Lincoln: Sem dúvida alguma. A agricultura é uma atividade amplamente dependente de fatores climáticos. Qualquer informação para as muitas variáveis envolvidas, são úteis para nortear atividades estratégicas de mitigação e adaptação, e certamente subsidiar o planejamento de atividades e/ou políticas públicas para o setor.

 

Além do impacto direto no crescimento fisiológico das culturas, é possível identificar padrões para o surgimento de doenças e pragas, como a nuvem de gafanhotos que vem tirando o sono do agronegócio? 

Dr. Lincoln: Sim! A EMBRAPA tem diversos estudos nessa temática.

 

Você sente que esses dados climáticos, tão importantes para um bom desempenho das safras, está bem disponibilizado para usinas e produtores? 

Dr. Lincoln: As informações climáticas de uma maneira geral estão disponíveis mas, por vezes, fragmentadas em diversas instituições. Outro aspecto é que muito dessa informação, infelizmente está destinada para um público técnico e não é trivial a interpretação. O setor e/ou usuário, por vezes, desconhece que existe esse tipo de informação e quão benéfica seria para sua atividade considerar essa informação. Nos dias atuais é fundamental o trabalho conjunto provedor de serviços climáticos e usuário final. 

 

Em sua opinião, quem tem em mãos esses dados estaria em “vantagem” frente aqueles que planejam suas ações no campo de forma analógica? 

Dr. Lincoln: Sim! Principalmente num cenário de mudança do clima. Qualquer informação adicional torna-se estratégico nas suas atividades. Os grandes produtores do mundo já perceberam isso e incorporaram essas informações nos seus planejamentos estratégicos de curto, médio e longo prazo.